quinta-feira, 15 de maio de 2014

Conto: Até o sol se pôr - Parte 2

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O dia estava quente, Rúbia tinha andado somente dois quarteirões e não aguentava mais, sua pele estava avermelhada e seus olhos não conseguiam guia-la corretamente pela rua.
Ela viu uma árvore grande na calçada ao lado foi até ela e sentou na sombra, olhava para as mãos e pernas pálidas, seus olhos se encheram de lágrimas e ela começou a chorar.
__“Você fez isso por que quis, criança”.– repetia entre soluços – Eu sei, eu não vou te culpar.
A garota ouviu passos vindo em sua direção, limpou as lágrimas e levantou o rosto.
__Rúbia, o que aconteceu? – ela tinha um olhar preocupado, cabelo castanho-claro e olhos verdes.
__Nada Mel, nada...
__Como nada? Você está com os olhos cheios de lágrimas... – a menina sentou ao lado dela – me conta o que aconteceu!
__Não é nada... Sabe, quando seus olhos simplesmente se enchem de lágrimas sem nenhum motivo aparente?
__Ah, para com isso! Você está muito depressiva, amiga! – dizia enquanto dava lhe um abraço.
Rúbia pode sentir cada pulsada de sangue vindo do coração de Melissa, ela afastou o cabelo da garota e chegou mais perto do pescoço, sua boca salivava, sentia o estômago queimar pedindo sangue. A vampira abriu os lábios.
__Rúbia...O que você...
Suas palavras foram interrompidas, a vampira mordeu seu o pescoço e começou a sugar o sangue, Melissa sentia suas forças indo embora, por mais que quisesse ela não conseguia se desvencilhar do abraço de Rúbia.
Rúbia sentia prazer com cada gota de sangue que bebia, sugava cada vez mais, quanto mais bebia mais ela queria. Uma vontade insaciável.

Gabriel passava apressado pela mesma rua que atravessava todos os dias, mas ultimamente essa caminhada tinha se tornado mais agradável, sabia que em poucos minutos veria o sorriso dela novamente, a paixão tinha lhe pegado de jeito, não tinha como negar, ela era tudo para ele agora.
Ao longe ele via uma grande árvore, com duas garotas sentadas, elas estavam abraçadas. Ele chegou mais perto, uma delas lembrava sua namorada, algo vermelho escorria pelo pescoço da outra menina.
Gabriel se aproximou o suficiente para ver a cena que parecia ter saído de algum filme de terror. Seus lábios se abriram e somente conseguiram balbuciar o nome da garota que ele tanto amava:
__Rúbia...
A menina-vampira levantou os olhos sedentos e olhou para aquele que chamara o seu nome, sua boca manchada, com sangue escorrendo.
Ela levou breves minutos para reconhecer a face dele e assim que isso aconteceu, lágrimas voltaram a escorrer pelo seu rosto, de medo, vergonha, arrependimento, tristezas.
O corpo da garota inconsciente, ainda viva, caído em seu colo, sua amiga de tantos anos esteva por um triz da morte e por sua causa.
No que ela tinha se tornado? Em um monstro? Era isso mesmo que ela queria? Ah, não... Tudo que ela sempre desejou foi a liberdade e ser imortal, pagou um preço muito caro por isso, com certeza.
O garoto ainda sem palavras a olhava com os olhos arregalados.
__Me desculpa, Gá... Eu não queria, eu juro. – e caiu em um choro alto e soluçante.

Gabriel não sabia o que fazer, no que pensar, estava atordoado. Como explicar para o seu cérebro aquela cena? No que a sua namorada tinha se tornado?
Melissa no colo de Rúbia respirava com dificuldade, estava morrendo, ele tinha que fazer alguma coisa, não poderia simplesmente assistir. Suas mãos trêmulas foram de encontro com o celular em seu bolso e discou “192”.
Quando a moça do outro lado da linha atendeu, ele sentiu a voz falhar, passou-se quase um minuto e antes que ela desligasse, ele conseguiu fazer com que suas cordas vocais voltassem a funcionar.
Ele disse que tinha uma garota desmaiada, que não sabia o que tinha ocorrido, só estava de passagem e deu o endereço, desligou o telefone e olhou mais uma vez para a morena que ele tanto sonhou em um dia ficar e agora que ela era sua, tinha a perdido para sempre. No que ela tinha se tornado agora? O que era aquilo? Sentiu lágrimas escorrendo pelo seu rosto, seu coração batia devagar e uma dor avassaladora assombrava seu peito. Por que Rúbia?
__Gá, não consigo suportar o sol... – sua pele branca estava cada vez mais avermelhada – me tira daqui, por favor.
          A voz dela penetrou nos seus ouvidos como magia, como negar um pedido dela? Como dizer não a ela? Ele morreria para vê-la sorrir.
Ele tirou Melissa do colo de Rúbia e a deitou no chão, pegou nas mãos gélidas da sua namorada e a levantou, pegou um casaco da sua bolsa e a entregou para que vestisse. De mãos eles caminharam o mais rápido que podiam, ao longe, era possível ouvir o som de uma sirene.
Várias perguntas passavam pela sua cabeça enquanto andavam, mas ele não teve vontade, ou coragem de dizer nenhuma delas, tinha medo do que poderia ouvir, algumas vezes o silêncio pode ser melhor do que a verdade.
Alguns minutos depois eles chegaram a um velho galpão. Ele já tinha estado lá outras vezes há muito tempo. Fora com uns amigos que diziam que ele era mal assombrado e faziam apostas para ver quem conseguiria entrar e quantos minutos ficariam lá dentro, era uma brincadeira divertida que hoje não tinha mais graça.
Gabriel ajudou Rúbia a atravessar o velho portão e entrar por um buraco do lado esquerdo da parede.
O lugar era escuro, mas alguns raios de sol ainda passavam por entre buracos no teto, em um canto próximo tinha uma velha mesa de bilhar. Rúbia se aproximou da mesa, subiu e deitou, pouco se importando com a poeira, os olhos vazios miravam o teto e ainda escorriam lágrimas.
Gabriel deitou-se ao lado dela e segurou a sua mão, por mais que estivesse confuso e com medo ele ainda a amava e não poderia fazer nada para mudar isso.
Passaram-se vários minutos sem que nenhum dos dois dissesse uma única palavra, os soluços dela eram as únicas coisas que quebravam o silêncio.
            __Desculpa, Gá – ela começou com a voz fraca – Eu não sei o que aconteceu – as lágrimas insistiam em cair - ás vezes eu me sinto como se não fosse eu. Sabe, eu não sei como explicar é uma sensação estranha. É mais ou menos como se você estivesse bêbado, você não sabe muito bem o que está fazendo, mas mesmo assim você não faz nada que não queira fazer. Nem eu consigo entender direito... 
            Silêncio. Ela continuou:
            __Eu estou morrendo de sono agora, você pode ficar aqui comigo até o sol se pôr?
Ele nada respondeu, apenas abraçou-a forte e ficou ali, sentindo o perfume dela, pela última vez.
Rúbia sentiu o calor do corpo dele correndo pelo dela. Por que tinha feito isso? O silêncio dele doía tanto. Ele poderia ter dito qualquer coisa, mas porque continuava em silêncio? Ter o feito sofrer a deixava sentindo-se culpada. Como ela queria roubar a dor dele. Daria tudo para voltar ao passado e não ter o feito se machucar. Ela sentiu o coração dele batendo, mas não pensou em sangue, não daquela vez.
__Eu te amo. – as palavras foram balbuciadas antes que ela fechasse os olhos e caísse num transe. Um sono pesado e sem sonhos. Ela não sonharia nunca mais.

***
           A noite caiu e Rúbia automaticamente abriu os olhos, eles miraram mais uma vez o teto do galpão, ela ainda conseguia sentir o calor do corpo dele, sentia cada batida do seu coração machucado.
A boca dela involuntariamente começou a salivar, seus olhos entraram em desespero, ela afastou o corpo dele e levantou da mesa, ele ainda dormia. Rúbia começou a tremer, estava com medo. Medo dela mesma.
Seus olhos começaram a vacilar do castanho ao vermelho, seu estômago queimava. Meu Deus, me ajude! Foi a frase que ela pensou.
Rúbia caiu de joelhos no chão, lutando contra si mesma. Em baixo da mesa de bilhar havia vários pedaços de madeira, ela levou a mão até um deles que lhe parecia bastante pontiagudo.
Apontou-o para o lugar em que deveria ficar seu coração e segurou-o ali, enquanto pensava se vampiros conseguiam se matar.
__Desculpa, mais uma vez... Desculpa por não conseguir me despedir também – ela não conseguiu evitar o choro.
Rúbia usou toda a força que tinha para enfiar a estaca o mais fundo que podia em seu coração, sentiu uma dor enorme corroendo todo o seu corpo, uma vontade de gritar, mas ela calou a sua voz, poderia suportar qualquer sofrimento, nenhum era maior do que o vazio que ela sentiu há pouco.
Seu corpo frio e pálido caiu no chão empoeirado do galpão, e foi molhado por lágrimas minutos depois.

FIM.

2 comentários:

  1. Gracii!! Adorei!
    Pensei em dizer que o final é triste, mas pensando bem, eu tbm colocaria desta forma (dramatica nem um pouco! haha). Adorei mesmo!

    Beijos,
    Nina
    Storytime, storyteller

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  2. Obrigada, que bom que gostou!! :D
    Sim, somos dramáticas!! Eu gosto de finais dramáticos!! shaushuash

    Beeijos :)

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